Há coisa de uns meses atrás, um dos meus colegas de trabalho, perguntou-me "Como era ser Português"? Não só por não ser no seguimento da conversa que estávamos a ter, mas porque não tinha sequer pensado nisso antes, a pergunta, surpreendeu-me. Rapidamente, respondi, que é ser pobre, queixar-se disso, mas estar-se a borrifar para isso, porque pelo menos temos horas de sol com fartura, e o dinheiro não compra a felicidade (so they say)...mas com a ironia e/ou humor postos de lado, fiquei a matutar no assunto. Ainda mais, depois de ele me ter pedido para lhe dar 2 "imagens" do que é ser português.
Aceitei o desafio, até porque, além de original e aliciante, queria também pensar um bocado nisso. Passei algum tempo na net à procura, e a pensar um bocado, na minha "imagem" do que é ser tuga. E para além da minha "visão", qual seria a imagem colectiva? Seria a mesma?
Seria ainda o Zé Povinho do Bordalo? Teria ele um chapéu de basebol e uma t-shirt do Continente ou da Selecção, em vez do chapéu e colete de lavrador? Uma coisa ele mantinha de certeza: continuava a fazer o manguito e/ou a dizer.."queres fiado, toma!" Acabou por ser engraçado também durante este processo descobrir a imagem que os meus amigos brit's tinham de nós: Temos um País lindo (e a maioria conhece o Algarve e Lisboa, imaginem se conhecessem o resto), somos bonitos (dei-me ao trabalho de recolher opiniões de ambos os sexos), profissionalmente competentes (eles estranham imenso porque é que a maioria dos tugas vem para o U.K., fazer trabalhos não especializados), e somos muito pobres. Cá para mim, têm razão em tudo. Só acho que lhes escapa umas coisas: Não nos suportamos uns aos outros, sofremos de invejite,e de um egoísmo a toda a prova. O conceito de Minifúndio, é personificado em Portugal.De tal maneira, que em Portugal até as claques dos clubes de futebol andam à pancada entre elas. Claques do mesmo clube, bem entendido. O nosso conceito de colectivo, é poder utilizar coisas dos outros, mas de preferência sem ceder o que é nosso. O que é teu, é meu, e o que é teu, é nosso. Nenhum dos meus amigos Brit's viveu na Tuga, para se poder aperceber da Invejite aguda de que padecemos. Fica-se mais feliz com a desgraça dos outros, do que com o sucesso. A galinha da vizinha...
Há momentos em que sinto que em pleno séc XXI, continuamos com a mentalidade tacanha pré-25 Abril. Nasci em 74, e pouco me lembro como era, mas do que descobri, continuamos na mesma. Quer dizer, agora temos telemóvel, pagamos o carro e as férias no Algarve com empréstimos, etc, etc, mas a mentalidade, é a mesma. Acho que mais que a oportunidade da CEE, perdemos com o 25 de Abril a oportunidade de mudar mentalidades.Continuamos a ter uma cultura de títulos. Continuamos a ser o único país da Europa em que duas famílias controlam todas as posições de decisão: a família DR., e a família Eng.. E ambas são numerosas...Em 1 ano de trabalho no país das boas maneiras e protocolo, nunca tive de me dirigir a ninguém pelo título académico. Oficiais do Estado incluído. Trato os meus patrões pelo 1º nome, e nenhum deles tem o grau académico no multibanco, ou visa. Outras mentalidades. Noutra altura, voltarei a este tema.
Voltemos às imagens. Talvez sugestionado pela distância e a saudade (sim, é verdade, fica-se comovido a ouvir fado), e pelo timing em que a situação se passou, acabei por fazer a escolha. Optei por 2 vídeos. E explico porquê: um Tuga, não pode estar calado...e sem som, ficamos reduzidos. Tinha de ter som, não podia ser uma foto. Escolhi um vídeo da Mariza, porque além de ser fadista (a nossa cultura),num momento especial e emocionante, a cantar um tema que não podia ser mais apropriado. Por algum motivo, achei que representava bem o nosso sentir. Ou Alma, se preferirem. Porque além de ser a nossa música nacional, fez-me sentir a nossa Saudade. Porque me faz acreditar, que uma nova geração, não cortando totalmente com o passado, ou com a nossa cultura, pode novamente mostrar-nos ao Mundo, e ser Excelente. A outra escolha, foi o hino nacional cantado pelos LOBOS, pela selecção nacional de rugby. Confesso que não sou grande aficionado deste desporto em especial. Gosto no entanto, de uma boa história de "underdog". Para quem nunca ouviu o termo, um underdog, é muito resumidamente, o vencedor contra todos os prognósticos...o que à partida teria menos possibilidades de ganhar. Os Lobos, cometeram o feito histórico de pela 1ª vez terem chegado à Fase Final do Campeonato do Mundo da modalidade. Se isto já era um feito assinalável, mais valor terá, porque são amadores, e terão sido a 1ª equipa amadora a consegui-lo. Acreditaram, sofreram, e foram lá. Apanharam uma malha dos "All Blacks", a equipa da Nova Zelândia, que é só a melhor equipa do Mundo, que ficará na história, mas fizeram-no sempre a rugir. De dentes cerrados. A dar o seu melhor. O entusiasmo, a Paixão, e o Orgulho com que cantaram o Hino Nacional foi no mínimo inspirador. Não é o resultado final que eu me vou lembrar no futuro. Vou guardar comigo a imagem de ver aqueles homens a sentir o seu Hino, a cantar de peito feito, a plenos pulmões. Não foi a assobiar, a trautear, a olhar para o chão. Porque mais uma vez, e como em tantas outra ocasiões, um punhado de vontades, chegou longe. Fez História. Como sempre foi na nossa História. Fossem mais assim...
domingo, 18 de maio de 2008
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